segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Homilia da Missa de Natal

RECLINOU-O NUMA MANJEDOURA

Pe. Luiz Carlos de Oliveira, CSsR

Nasceu-nos um Menino

            Diante do presépio estamos contemplando o maior acontecimento de todos os tempos. Para muitos não passa de uma imagem, de um folclore cristão, de uma lenda. Os que foram capazes de compreender e abriram a inteligência, viram o rosto Deus na simplicidade daquela criança. Não fomos nós que O fizemos a nossa imagem, mas Ele que escolheu nossa humanidade para se tornar acessível. Não somente tomou um corpo, mas assumiu nossa humanidade fazendo-a sua. Deus faz parte de nossa história e a une a sua vida para que tenhamos vida plena. Em Jesus, Homem Deus, a humanidade tem sua significação total. Não somos meros fatos. Recebemos o sentido para tudo o que existe em nós. A simplicidade do momento vai além. O texto de Lucas é singelo e diz tudo. Não é um fato fora da história, pois aconteceu um dia, no Império Romano, numa região distante do centro do mundo. Foi profetizado e aconteceu. No recenseamento, José e Maria foram registrar-se em Belém que era sua região de origem. “Completaram-se os dias para o parto. E Maria deu à luz seu filho primogênito, envolveu-O em faixas e O reclinou numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala da hospedagem” (Lc 2,6-7). As palavras simples revelam a densidade do mistério. São palavras que falam primeiro ao coração. Não se trata de pauperismo social, mas da condição de todo o ser humano sempre completo. Sua grandeza se percebe mais na simplicidade, pois, para o amor tudo é grande. Cocho de palha ou berço de ouro não tem diferença quando é para amar. O brilho está por dentro. Nesta simplicidade acolheu os pastores e os Magos.

Uma vida e um caminho

            Jesus não é só um acontecimento ou uma data de calendário. Ele é Vida, pois é a fonte da Vida. Por ser um com o Pai, mesmo sendo também homem, comunica Vida. A revelação que Jesus faz da vontade do Pai é abrir à comunhão de Vida. Ele veio para estabelecer essa comunhão com o Pai. O ser humano, homem e mulher, são muito maiores que um tempo de vida e um corpo que termina. Somos mais. Já os poetas gregos, citados por Paulo, dizem que somos da natureza Divina: “Nós somos também de sua raça” (At. 17,28). S. Pedro diz palavras profundíssimas: “Por elas (glória e virtude) nos foram dadas as preciosas promessas a fim de que assim vos tornásseis participantes na natureza Divina” (2Pd 1,4). Recebemos a comunicação da natureza Divina, plenitude da vida que pertence a Deus. Esse dom é para nós um compromisso de fazer um caminho no qual a vida Divina e humana que possuímos sejam nossa vida.

Viver a Encarnação


O nascimento de Jesus não é só uma questão de um fato da vida Dele. Mas faz parte de nossa vida. Uma vez que vivemos na comunhão com Deus pela própria natureza humana que Jesus possui, é natural viver como Jesus viveu. Por que viver só a condição humana, quando a que permanece é a divina que glorifica a humana? Viver a comunhão com Deus é o natural da vida. Mesmo que não nos interessemos, a comunhão está em nós. Viver o Natal é viver como Jesus viveu. Ele foi totalmente humano, como nós, nem por isso deixou de lado sua Divindade. Mostrou que Deus não atrapalha a vida humana. Aliás, se assumíssemos o caminho que Jesus nos mostrou, o mundo estaria diferente. Por que não fazer a experiência. Aos que creem em Jesus como religião S. João diz: “Aquele que diz que está Nele, também deve andar como Ele andou” (1João 2,6). A celebração do Natal deve nos encantar, pois se manifestou a glória de Deus. Feliz Natal com Jesus.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo


A economia da Encarnação redentora

A glória do homem é Deus; mas quem se beneficia das obras de Deus e de toda a sua sabedoria e poder é o homem. 
Semelhante ao médico que demonstra sua competência no doente, assim Deus se manifesta nos homens. Eis por que o Apóstolo Paulo diz: Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos (Rm 11,32). Referia-se ao homem que, por ter desobedecido a Deus, perdeu a imortalidade, mas depois obteve misericórdia, recebendo a adoção por intermédio do Filho de Deus. 
Se o homem acolhe, sem orgulho nem presunção, a verdadeira glória que procede das criaturas e do criador, isto é, de Deus todo-poderoso que dá a tudo a existência, e se permanece em seu amor, na obediência e na ação de graças, receberá dele uma glória ainda maior, progredindo sempre mais, até se tornar semelhante àquele que morreu por ele. 
Com efeito, Cristo se revestiu de uma carne semelhante à do pecado (Rm 8,3) para condenar o pecado e, depois de o condenar, expulsá-lo da carne. Tudo isso para incentivar o homem a tornar-se semelhante a ele, destinando-o a ser imitador de Deus, colocando-o sob a obediência paterna, a fim de que visse a Deus e tivesse acesso ao Pai. O Verbo de Deus habitou no homem e se fez filho do homem, para acostumar o homem a compreender a Deus e Deus a habitar no homem, segundo a vontade do Pai. 
Por esse motivo, o sinal de nossa salvação, o Emanuel nascido da Virgem (cf. Is 7,11.14), foi dado pelo próprio Senhor; pois seria ele quem salvaria os homens, já que não poderiam salvar-se por si mesmos. Por isso São Paulo proclama a fraqueza do homem, dizendo: Estou ciente de que o bem não habita em mim (Rm 7,18), indicando que o bem de nossa salvação não vem de nós, mas de Deus. E ainda: Infeliz que sou! Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24). E logo mostra quem o liberta: A graça de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rm 7,25). 
Também Isaías diz: Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para nos salvar” (cf. Is 35,3-4). Na verdade, nossa salvação não poderia vir de nós mesmos, mas unicamente do socorro de Deus.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A reforma do Ano Litúrgico a partir do Concílio Vaticano II (parte III)


A memória da Virgem

Na celebração deste ciclo anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com especial amor, porque indissoluvelmente unida à obra de salvação do seu Filho, a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, em quem vê e exalta o mais excelso fruto da Redenção, em quem contempla, qual imagem puríssima, o que ela, toda ela, com alegria deseja e espera ser (SC 103).

Sacrosanctum Concilium no número 103 dá um lugar de destaque a Virgem Maria devido sua íntima união com a obra da salvação realizada em Jesus Cristo, seu Filho. Como afirma LLABRÉS: “A memória de Maria na liturgia aparece unida primordialmente à memória dos eventos salvíficos realizados por Jesus.[4]

Há de se destacar dois aspectos ao celebrar a memória da Virgem Maria na liturgia:

a) Na memória de Maria, a Igreja cultua a Deus

Ao celebrar a memória da Virgem Maria, a Igreja cultua a Deus que, como ela mesmo canta no magnificat:“Fez grandes coisas em seu favor” (Lc 1,49). De fato, ao celebrarmos os mistérios de Cristo na vida da Bem-aventurada Virgem Maria, damos graças ao Senhor que olhou para sua serva, Maria, e fez grandes coisas em seu favor. Maria aparece na Sagrada Escritura indissoluvelmente unida a obra de Cristo e, por conseguinte a obra da salvação (cf. Mt 1,22-23; Lc 1,28-38; 2,35; Jo 2,4-6; 19,25-27). Mesmo depois da paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus aos céus, Maria continua unida a Igreja nascente (cf. Atos 1,14). Deste modo, celebrando a memória de Maria na liturgia, fazemos memória de toda a obra da salvação que Deus Pai realizou em seu Filho Jesus Cristo. “Ao honrar Maria, a Igreja quer glorificar a Cristo, de quem vêm a Maria todos os privilégios. A Igreja admira Maria, o fruto mais excelente da redenção”[5]. A Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma que:

Este culto, tal como existiu sempre na Igreja, é de todo singular, mas difere essencialmente do culto de adoração que é prestado ao Verbo encarnado e do mesmo modo ao Pai e ao Espírito Santo, e muito contribui para ele. Pois que as várias formas de devoção para com a Mãe de Deus, que a Igreja aprovou – dentro dos limites da doutrina Sã e ortodoxa, segundo as circunstâncias como sinal de esperança segura e de consolação, aos olhos do povo de Deus peregrino (LG 68).

b) Maria aparece como modelo a ser imitado

Fazendo memória da Virgem Maria a Igreja celebra “tudo o que ela deseja e espera com alegria ser” (SC 103). A Constituição Dogmática Lumen Gentium nos oferece uma riquíssima reflexão acerca do valor de Maria para a vida da Igreja. Ela dedica todo o capítulo 8 para tratar de Maria no mistério de Cristo e da Igreja. A Constituição afirma que “A mãe de Deus é a figura da Igreja” (LG 63). E continua dizendo que:

A Igreja, contemplando a santidade misteriosa de Maria, imitando a sua caridade, e cumprindo fielmente a vontade do Pai, pela Palavra de Deus fielmente recebida torna-se também ele mãe: pela pregação e pelo batismo gera, para uma vida nova e imortal, os filhos concebidos do Espírito Santo e nascidos de Deus. E é também virgem, que guarda a fé jurada ao Esposo, íntegra e pura; e, à imitação da Mãe do seu Senhor, conserva, pela graça do Espírito Santo, virginalmente íntegra a fé, sólida a esperança, sincera a caridade (LG 64).


[4]LLABRÉS, P. O culto a Santa Maria, Mãe de Deus. In: BOROBIO, Dionísio. A celebração na Igreja. Vol. 3. São Paulo: Loyola, 2000, p. 218.

[5]NICOLAU, Miguel. Concílio Vaticano II –Constituição Litúrgica: texto e comentário teológico-pastoral. Braga: Secretariado Nacional do Apostolado da Oração, 1968, p. 148.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O povo celebrante


O povo celebrante: sujeito da celebração

Por Frei Faustino Paludo, OFMcap

1. Introdução
Nada mais justo que celebrar os 40 anos da promulgação da Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium[1] fazendo o resgate dos eixos articuladores da renovação e reforma da ação celebrativa da Igreja. Como fruto maduro de todo um movimento de renovação, a Constituição teve como centro de convergência o “povo de Deus e sua participação ativa, consciente e plena nas riquezas da Sagrada Liturgia”.
A Sacrosanctum Concilium inspirou-se na eclesiologia de comunhão e de participação, que a fez superar os documentos anteriores do magistério eclesiástico[2]. Situou-se na perspectiva do povo de Deus, num autêntico gesto de quem desejava mergulhar na alma do povo e abrir para ele os tesouros e riquezas da Sagrada Liturgia escondidos por tantos séculos[3].
A Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia foi o primeiro documento a ser aprovado e promulgado. Por isso mesmo, deve ser avaliado no conjunto dos documentos conciliares. A compreensão da Igreja como “mistério” e “povo de Deus”, postulada pela Lumen Gentium em seus dois primeiros capítulos, além de favorecer uma visão mais bíblica, sacramental e antropológica, deu maior consistência e amplidão à eclesiologia da Constituição Litúrgica. A Gaudium et Spes abriu a liturgia para a realidade da pessoa, da sociedade e da cultura.
A obra de renovação e de reforma litúrgica desencadeada pelo Vaticano II, através da Sacrosanctum Concilium, foi monumental. Todavia, não podemos parar na admiração do monumento. Urge abrir as janelas do nosso tempo para que o sopro do Espírito, presente nos 130 artigos dessa Constituição conciliar, inspire as Igrejas locais, as comunidades e as equipes de liturgia na busca e promoção de celebrações orantes, pascais, simbólicas, participativas e inculturadas.

2. O povo sacerdotal

A liturgia é ação da Igreja. “As ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é ‘sacramento de unidade’, povo santo reunido e ordenado sob a direção dos bispos. Por isso, estas celebrações pertencem a todo o corpo da Igreja” (SC 26). É toda a comunidade, o corpo unido à Cabeça, que é Cristo, quem celebra. A Constituição conciliar sublinha, assim, a dimensão eclesial das ações litúrgicas. Evidencia o primado do comunitário sobre o particular. As celebrações litúrgicas “manifestam e implicam” (SC 26) todo o corpo da Igreja. Isso evidencia a íntima relação entre a Igreja e sua ação litúrgica. No modo de preparar e de realizar determinada ação litúrgica, a Igreja deveria aparecer e ser reconhecida como povo santo, corpo de Cristo.
O Concílio desloca o centro. De uma liturgia centralizada na pessoa do “sacerdote celebrante” para a assembleia do “povo sacerdotal”. “As orações dirigidas a Deus pelo sacerdote que preside à comunidade na pessoa de Cristo são rezadas em nome de todo o povo santo e de todos os que estão presentes” (SC 33). Já não se fala do “sacerdote que celebra” e dos fiéis que assistem. Todos os membros da assembleia devem estar envolvidos na e pela ação celebrativa. “Para isso, a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não assistam a este mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos” (SC 48).
Em vista da ação eminentemente eclesial, o Concílio declara: “É desejo ardente da mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação na celebração litúrgica que a própria natureza da liturgia exige e à qual o povo cristão, ‘raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido’ (1Pd 2,9), tem direito e obrigação, por força do batismo” (SC 14).
Observe-se que o documento conciliar fala repetidas vezes de “povo cristão”, “povo adquirido”, “povo santo”, “participação de todo o povo”. Se, por um lado, a liturgia é “obra de Cristo e da Igreja, seu corpo” (SC 7), ela é, por outro, também ação do “povo santo reunido e ordenado sob a direção dos bispos” (SC 26). “A principal manifestação da Igreja se faz numa participação perfeita e ativa de todo o povo santo de Deus na mesma celebração” (SC 41).
O Concílio resgata a liturgia como ação do povo sacerdotal, numa feliz referência a 1Pd 2,9. Assim, o povo é convocado e congregado para a escuta da Palavra e a renovação da aliança com o Senhor (cf. Dt 4,10; 10,4.9; Ex 19-24). A resposta ao convite de Deus, que se traduz em adesão e participação, constitui a assembleia do povo sacerdotal. Jesus Cristo, o sumo sacerdote, reúne seu povo, a quem, pelo batismo, torna apto para participar de seu sacerdócio. “Fez do novo povo um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai” (cf. Ap 1,6; 5,9-10). Aos fiéis que une inteiramente à sua vida e missão Cristo dá também parte no seu múnus sacerdotal a fim de exercerem um culto espiritual, para a glória de Deus e salvação dos homens (cf. LG 31.34). Assim, todos os discípulos de Cristo, perseverando juntos na oração e no louvor a Deus (cf. At 2,42-47), ofereçam-se a si mesmos como hóstia viva, santa, agradável a Deus” (Rm 12,1; LG 10-11). É na ação celebrativa da assembleia cristã que se manifesta e se realiza o caráter sacerdotal de todo o povo de Deus, o qual se oferece e rende graças ao Pai (cf. SC 48; LG 10) por meio de Cristo, no Espírito Santo.

3. Ação participativa

Do povo sacerdotal emerge o fundamento da participação ativa na liturgia da assembleia, isto é, da participação ativa e plena do corpo e do espírito, “ardentemente desejada pela Igreja e exigida pela própria natureza da celebração”. Observe-se que a Constituição jamais se refere à “assistência das ações litúrgicas” como um ideal a ser alcançado pela pastoral litúrgica. Ela fala sempre de uma “participação ativa, plena, frutuosa e consciente” (cf. SC 11.14) como meta a ser alcançada pelo serviço pastoral. O Pe. H. Schmidt reconhece que a necessidade da participação do povo na liturgia é tantas vezes repetida na Sacrosanctum Concilium, a ponto de ser comparada ao estribilho de uma ladainha. Essa insistência demonstra que a “participação ativa, consciente e plena” é um dos princípios inspiradores e orientadores da obra de renovação e reforma litúrgica postulada pelo Concílio[4]. Ocorre, também, que a liturgia é ação memorial, atualização do acontecimento salvador (SC 4-5), e não um espetáculo ao qual se deva assistir na arquibancada.
Ao fato de a liturgia ser “culminância para a qual se dirige a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10) segue-se a conclusão de que todo membro da comunidade eclesial tem direito e obrigação à participação consciente, ativa e plena na ação celebrativa, por força do batismo (SC 14). Naturalmente a assembleia tende à participação. Sem participação, a assembleia seria um contrassenso. Assembleia do povo sacerdotal e participação se atraem e se completam. A participação ativa do povo na ação litúrgica também realiza de forma plena e acabada a assembleia e a conduz a ser aquilo mesmo para o que foi convocada. Agora, à medida que se resgata a assembleia celebrante, não se pode deixar de tratar igualmente da participação ativa dos seus integrantes.
A Constituição conciliar não define formalmente em que consiste a participação ativa[5]. Ela apresenta uma descrição que, naturalmente, se contrapõe à simples assistência: “A Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não assistam a este mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, piedosa e ativamente, por meio de uma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos na palavra de Deus; alimentem-se na mesa do corpo do Senhor; deem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que dia após dia, por meio de Cristo mediador, progridam na união com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos” (SC 48).
A participação consciente, ativa e frutuosa dos fiéis, promovida por todos os meios, transcende a simples presença física e o rezar devotamente. Supõe disposições de reta intenção, harmonia entre a mente e as palavras, cooperação com a ação de Deus (cf. SC 11), equilíbrio entre participação interna e externa (cf. SC 19), incentivo das aclamações, respostas, antífonas, cânticos, ações, gestos e atitudes do corpo (cf. SC 30). Assume formas diversificadas em conformidade com a idade, as circunstâncias, o gênero de vida e o grau de cultura religiosa (cf. SC 19). A participação desejada pelo Concílio emerge da ação que envolve vitalmente o sujeito da ação litúrgica e deve se realizar nos momentos de oração, quando a assembleia, como um só coração e uma só voz, se dirige com confiança ao Pai, apresentando as suas necessidades e oferecendo seu louvor[6]. “Para ser autêntica deve envolver a pessoa como um todo, e levando em conta que vivemos numa cultura profundamente marcada por rupturas na maneira de compreender e viver no mundo, celebrar, envolvendo-se por inteiro, torna-se um desafio para o sujeito da celebração”[7].
Em vista da participação consciente e ativa do povo sacerdotal, a Constituição conciliar refere-se à formação litúrgica, tanto do clero quanto dos fiéis, como a uma necessidade primordial e um pressuposto indispensável (cf. SC 14-19): “Procure-se também inculcar, por todos os modos, uma catequese mais diretamente litúrgica, e prevejam-se nas próprias cerimônias, quando necessário, breves esclarecimentos” (SC 35)[8]. Quer dizer, não haverá participação do povo sacerdotal, fiéis e ministros, sem compreensão daquilo de que se participa. A própria “reforma geral da liturgia” recomenda o acesso e a participação do povo cristão: “… o texto e as cerimônias devem ordenar-se de tal modo, que de fato exprimam mais claramente as coisas santas que eles significam e o povo cristão possa compreendê-las facilmente, à medida do possível, e também participar plena e ativamente da celebração comunitária” (SC 21). Em favor da mesma participação ativa, o Concilio recomenda que as cerimônias resplandeçam pela nobreza, clareza, objetividade e adaptação à capacidade de compreensão dos fiéis, evitando, assim, as muitas explicações (cf. SC 34). A reforma dos ritos e dos livros litúrgicos deveria favorecer a participação ativa, consciente, plena e frutuosa da assembleia.
A própria Constituição faz uma advertência e assinala por onde começar a formação litúrgica: “… não havendo esperança alguma de que isto aconteça, se antes os pastores de almas não se imbuírem primeiramente do espírito e da força da liturgia e não se tornarem mestres nela, é absolutamente necessário que se dê o primeiro lugar à formação litúrgica do clero” (SC 14). Igualmente, os que exercem ministérios e serviços devem estar “imbuídos do espírito litúrgico e preparados para executar as suas partes, perfeita e ordenadamente” (SC 29).

4. Ação ministerial

A assembleia do povo sacerdotal convocada para a ação celebrativa não é uma massa amorfa nem um público desarticulado, “mas povo santo reunido e ordenado sob a direção dos bispos” (SC 26). É a comunidade eclesial reunida e articulada ao redor do ministro que a “preside na pessoa de Cristo” (SC 33)[9] e em torno da ação dos diferentes ministérios e serviços distribuídos entre os seus membros. A participação ativa, nas celebrações litúrgicas, consiste em que cada um, ministro ou fiel, ao desempenhar uma função, “faça tudo e só aquilo que pela natureza da coisa ou pelas normas litúrgicas lhe compete” (SC 28). Isso evidencia a dimensão comunitária da participação (cf. SC 27) e demonstra que a diversidade de funções e serviços no interior da assembleia deve ser respeitada. O fato de a celebração litúrgica ser uma ação de toda a comunidade dos batizados e das pessoas animadas por sua fé não significa que nela deva haver nivelamento ou personalismos. Quem exerce o ministério da presidência não deve assumir outras funções além da sua nem transferir aos fiéis funções que são da competência do ministério ordenado. Um é o que preside, outro é quem entoa o canto, ou proclama a palavra de Deus, ou efetua os comentários. Não corresponde à natureza comunitária da liturgia e à dinâmica da participação ativa e plena uma mesma pessoa açambarcar diferentes ministérios e funções. A ação litúrgica pertence a todo o corpo, mas, sendo um corpo articulado, esta ação atinge a cada membro de modo diferente, conforme a diversidade de ordens e ofícios (cf. SC 26).
A celebração se inscreve na dinâmica da inter-ação (da ação conjunta), na qual todos os presentes atuam, seja como membros da assembleia, seja como ministros e servidores. É sempre assembleia quem reza, canta, escuta, dialoga, intervém, medita, dança e age, servida por ministros e servidores. A Sacrosanctum Concilium lembra que os diferentes servidores da assembleia, tais como os que servem o altar (acólitos), leitores, comentaristas e componentes do coral, “exercem um verdadeiro ministério litúrgico”, sendo convidados a desempenhar a função que lhes cabe “com a piedade sincera e a ordem que convém a tão grande ministério e que, com razão, o povo de Deus exige deles” (SC 29).
O desafio está em situar cada uma das funções no conjunto das demais e todo o ministério no contexto comunitário e eclesial da celebração, de tal maneira que, pela própria organização da ação litúrgica, a Igreja apareça tal como é constituída em suas diversas funções e ministérios (cf. IGMR 58).
Enfim, o conjunto dos enunciados da Sacrosanctum Concilium destaca a assembleia das pessoas de fé, a qual se reúne para celebrar os mistérios cristãos, como sinal da Igreja de Cristo, e atua como sujeito da ação celebrativa. Povo sacerdotal e assembleia santa, congregada pelo Espírito Santo e presidida por seus pastores. No interior dessa assembleia todos são e podem sentir-se agentes da celebração, segundo a diversidade de ministérios, funções e serviços. A participação litúrgica, segundo o Vaticano II, consiste em que todos se sintam vitalmente comprometidos e exerçam aquilo que, de fato, lhes compete, pela natureza da ação e pelas normas da liturgia. A participação consciente, ativa e plena é um direito e um dever que assiste a todos os membros do povo celebrante.
Que os sonhos acalentados por séculos de uma liturgia acolhedora e participativa, tendo como sujeito a assembleia do povo santo, consolidada pela reforma e renovação conciliar, se renovem na celebração dos 40 anos da SC em terras brasileiras.


[1] As citações são extraídas dos “Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II”, in Documentos da Igreja I, Paulus, São Paulo, 1997 (existe também versão de bolso).
[2] D. SARTORE, “Igreja e Liturgia”, in Dicionário de Liturgia, Paulus, São Paulo, 1992, p. 573.
[3] “É o cumprimento de um ardente desejo do Papa João XXIII, que um dia, ao terminar uma celebração litúrgica em uma igreja de Roma, assim exclamou: “como sofro ao pensar nas belas orações que acabo de rezar e que vocês não entenderam… É preciso que um dia esses tesouros se tornem acessíveis a todos”. Cf. Guilherme Baraúna, “A participação ativa, princípio inspirador e diretivo da constituição litúrgica”, in Guilherme Baraúna (org.), A sagrada liturgia renovada pelo Concílio, Petrópolis, Vozes, p. 283.
[4] Ibidem, p. 282. ABREVIADO? IBID.?
[5] Julián Lopez, Martin, No espírito e na verdade. Introdução teológica à liturgia, Vol. I, Petrópolis, Vozes, 1997, p. 211.
[6] “A verdadeira participação ativa, plena e consciente só se verifica no caso de uma perfeita sintonia do corpo e da alma, de todas as faculdades espirituais e corporais, à ação sacra que não é celebrada apenas entre o ministro e Deus, mas engaja vitalmente toda a assembleia litúrgica. Somente esta participação plena e consciente satisfaz em cheio a natureza da liturgia e o caráter somático-espiritual do homem. Tal é a participação visada pelo Concílio, tal é a meta que inspira todos os seus pensamentos e todas as medidas tomadas no intuito de promovê-la e facilitá-la ao máximo”. Cf. Guilherme Baraúna, “A participação ativa, inspirador diretivo da constituição litúrgica”, in Guilherme Baraúna (org.), A sagrada liturgia renovada pelo Concílio, Petrópolis, Vozes, p. 286.
[7] Luiz Eduardo Baronto, “‘Uma só coisa é necessária’ a respeito da participação plena na celebração litúrgica”, in José Ariovaldo da Silva e Marcelino Sivinski (orgs.), Liturgia, um direito do povo, Petrópolis, Vozes, 2001, p. 58.
[8] Julián Lopez, Martin, No espírito e na verdade. Introdução antropológica à liturgia, Vol. II, Petrópolis, Vozes, 1997, p. 301.

[9] Luis Maldonado, “A celebração litúrgica: fenomenologia e teologia da celebração”, in Dionísio Borobio (Org.), A celebração na Igreja: liturgia e sacramentologia fundamental, Vol. I, São Paulo, Loyola, 1990, pp. 171-172; Julián Lopez, Martin, No espírito e na verdade. Introdução teológica à liturgia, Vol. I, Petrópolis, Vozes, 1997, p. 210.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Homilia do 4º Domingo do Advento




“Seu Reino não terá fim”


Descendente de Davi

O nascimento de Jesus não é um ato isolado na história da humanidade. Acontece em continuação às maravilhosas intervenções de Deus na História do povo de Israel, com destinação a todos os povos. Deus preparou o nascimento de seu Filho na Humanidade, escolhendo para si um povo e neste, uma família cujo patriarca rei Davi recebe a promessa de uma herança eterna que vai acontecer em Jesus. Davi quis construir uma casa, isto é, um templo para Deus. E Deus responde através do profeta Natã: “O Senhor anuncia que Ele te fará uma casa… Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre” (2Sm7,11.16). É o que rezamos no salmo 88: “Fiz um juramento a Davi, meu servidor. Para sempre, no teu trono, firmarei tua linhagem, de geração em geração garantirei teu reinado… Com ele firmarei minha aliança indissolúvel”.  No anúncio a Maria Lucas diz que José “é descendente de Davi” (Lc 1,27). Falando do Menino que iria conceber proclama: “Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu Pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim” (Lc 32-33). Filho de Davi segundo a carne, Filho de Deus, segundo o Espírito: “Ele será chamado Filho do Altíssimo… O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra (presença de Deus), Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus” (Lc 1,32.35). Cumprem-se as profecias de um Salvador, Messias, Filho de Deus. Maria é virgem, pois Ele é Filho de Deus. Ela é a humanidade que acolhe a Divindade. É a Divindade que assume a Humanidade. É o momento da salvação. A carne se une a Deus.

Casa aberta a todos

               O nascimento durante o recenseamento o coloca na lista entre todos os homens. Os Anjos que cantam anunciam que pertence à Glória de Deus. Faz parte do povo por ser da casa e família de Davi. Na fé se faz mistério aberto a todos conforme as Escrituras proféticas (Rm 16,25-37). Com sua Morte e Ressurreição completa a promessa de abrir o santuário de Deus a todos. Em Cristo todos podem ter acesso ao Pai. O anúncio do Anjo nos abre ao universalismo da fé. Como o seio virgem de Maria concebeu e como o ventre morto de Isabel gerou, o seio da humanidade murcho pelo pecado pode conter o Filho do Criador e gerá-Lo pelo Espírito a todo Universo. Todos são chamados a ir a Belém para ver o que aconteceu e o que o Senhor deu a conhecer (Lc 2,15). Esses são em primeiro lugar os que são necessitados. Maria sintetiza em si a vocação de todo cristão: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim seguindo a tua palavra”. A missão de Jesus Ele a realiza como serviço, fazendo a vontade do Pai. A porta que abre a todos o caminho é realizar a vontade do Pai, como o fez Jesus. Assim implantou o Reino e nos fez casa de Deus.

Maria, casa de ouro

               Maria tornou-se casa de Deus. É casa de ouro. O ouro está na beleza de sua abertura a Deus que a quis como sua casa. É preciosa porque concebe o Filho de Deus e concebe a Palavra do Filho. Maria sintetiza em si esse momento de salvação. Traz Deus a nós e nos leva a Deus em sua própria carne. Ela é um sacramento em união a seu Filho sacramento do Pai. Nos sinais humanos do Filho leva-nos ao Divino que é. O Mistério que a envolveu ela O distribui como Mãe generosa a seus filhos. Na preparação do Natal do Senhor, somos chamados a viver a abertura para que o Verbo eterno reine sobre nós.

Leituras: 2° Samuel 7,1-5;8b-12.14ª.16; Salmo 88; Romanos 16,25-27;Lucas 1,26-38

Ficha nº 1398 – Homilia do 4º Domingo do Advento (21.12.14)

Deus preparou o nascimento de seu Filho escolhendo um povo. Neste escolheu uma família, de Davi a quem prometeu uma casa eterna. No anúncio do nascimento de Jesus é lembrando que é da família de Davi. No seio de Maria, na pessoa do Filho se cumpre a promessa de um Salvador que como Deus se une à humanidade. É o momento da Salvação.
No recenseamento Jesus é parte da Humanidade. Pertence à Glória de Deus. Faz parte da família de Davi. Abre o santuário a todos. Por Cristo temos acesso ao Pai. É o universalismo da fé. Jesus realiza sua missão como serviço fazendo a vontade do Pai. A porta que abre a todos o caminho é realizar a vontade do Pai, como fez Jesus.
Maria tornou-se casa de Deus, casa de ouro beleza de sua abertura a Deus que a quis como sua casa. E concebe o Filho e a Palavra do Filho. Maria sintetiza em si esse momento de salvação: traz Deus a nós e nos leva a Deus em sua própria carne. O Mistério que recebeu ela o distribui como Mãe generosa. Somos chamados a viver a abertura para que o Verbo eterno reine sobre nós.
                        Construindo uma casa

Começamos a preparação imediata para o Santo Natal.

Deus esteve sempre presente no meio de seu povo. Agora de um modo diferente. A Palavra de Deus usa a imagem da casa, isto é, uma família que continua.

No Antigo Testamento estava no templo. Davi quis construir uma para Deus, pois ele tinha a sua de cedro e o templo, a casa de Deus funcionava numa tenda, isso havia já 300 anos. Deus responde: Eu é que vou construir uma casa para você, isto é, a família de Davi permanecerá para sempre. E Jesus é da família de Davi e permanece para sempre. O Anjo diz a Maria que seu Reino não teria fim. Este Reino é para todos os povos.

O Anjo anuncia a Maria que ela seria a mãe do filho de Deus que nasceria. Ele é Filho do Altíssimo. Como se realizou este fato tão grande? O Espírito Santo te cobrirá com sua sombra, diz o Anjo. Sombra significa a presença de Deus.

Nós participamos do Natal quando fazemos como Maria: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim, segundo tua palavra”.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo


João é a voz, Cristo, a Palavra

João era a voz, mas o Senhor, no princípio, era a Palavra (Jo 1,1). João era a voz passageira, Cristo, a Palavra eterna desde o princípio.
Suprimi a palavra, o que se torna a voz? Esvaziada de sentido, é apenas um ruído. A voz sem palavras ressoa ao ouvido, mas não alimenta o coração.
Entretanto, mesmo quando se trata de alimentar nossos corações, vejamos a ordem das coisas. Se penso no que vou dizer, a palavra já está em meu coração. Se quero, porém, falar contigo, procuro o modo de fazer chegar ao teu coração o que já está no meu.
Procurando então como fazer chegar a ti e penetrar em teu coração o que já está no meu, recorro à voz e por ela falo contigo. O som da voz te faz entender a palavra; e quando te fez entendê-la, esse som desaparece, mas a palavra que ele te transmitiu permanece em teu coração, sem haver deixado o meu.
Não te parece que esse som, depois de haver transmitido minha palavra, está dizendo: É necessário que ele cresça e eu diminua? (Jo 3,30). A voz ressoou, cumprindo sua função, e desapareceu, como se dissesse: Esta é a minha alegria, e ela é completa (Jo 3,29). Guardemos a palavra; não percamos a palavra concebida em nosso íntimo.
Queres ver como a voz passa e a palavra divina permanece? Que foi feito do batismo de João? Cumpriu sua missão e desapareceu; agora é o batismo de Cristo que está em vigor. Todos cremos em Cristo e esperamos dele a salvação: foi o que a voz anunciou.
Justamente porque é difícil não confundir a voz com a palavra, julgaram que João era o Cristo. Confundiram a voz com a palavra. Mas a voz reconheceu o que era para não prejudicar a palavra. Eu não sou o Cristo (Jo 1,20), disse João, nem Elias nem o Profeta. Perguntaram-lhe então: Quem és tu? Eu sou, respondeu ele, a voz que grita no deserto: “Aplainai o caminho do Senhor" (Jo 1,19.23). É a voz do que grita no deserto, do que rompe o silêncio. Aplainai o caminho do Senhor, como se dissesse: “Sou a voz que se faz ouvir apenas para levar o Senhor aos vossos corações. Mas ele não se dignará vir aonde o quero levar, se não preparardes o caminho”.
O que significa: Aplainai o caminho, senão: Orai como se deve orar? O que significa ainda: Aplainai o caminho, senão: Tende pensamentos humildes? Imitai o exemplo de João. Julgam que é o Cristo e ele diz não ser aquele que julgam; não se aproveita do erro alheio para uma afirmação pessoal. Se tivesse dito: “Eu sou o Cristo”, facilmente teriam acreditado nele, pois já era considerado como tal antes que o dissesse. Mas não disse; pelo contrário, reconheceu o que era, disse o que não era, foi humilde. Viu de onde lhe vinha a salvação; compreendeu que era uma lâmpada e temeu que o vento do orgulho pudesse apagá-la.

Do Cântico espiritual, de São João da Cruz, presbítero

Nasceu em Fontíveros (Espanha), cerca do ano 1542. Depois de algum tempo passado na Ordem dos Carmelitas, tornou-se a partir de 1568 o primeiro dos frades na reforma de sua ordem, persuadido por santa Teresa de Jesus, tendo por isso suportado inúmeros sofrimentos e trabalhos. Morreu em Úbeda, no ano de 1591, com grande fama de santidade e sabedoria, de que dão testemunho as obras espirituais que escreveu.



Conhecimento do mistério escondido em Cristo Jesus

Embora os santos doutores tenham explicado muitos mistérios e maravilhas, e pessoas  devotadas a esse estado de vida os conheçam, contudo, a maior parte desses mistérios está por ser enunciada, ou melhor, resta para ser entendida.


Por isso é preciso cavar fundo em Cristo, que se assemelha a uma mina riquíssima, contendo em si os maiores tesouros; nela por mais que alguém cave em profundidade, nunca encontra fim ou termo. Ao contrário, em toda cavidade aqui e ali novos veios de novas riquezas.


Por este motivo o apóstolo Paulo falou acerca de Cristo: Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus (Cl 2, 3). A alma não pode ter acesso a estes tesouros, nem consegue alcançá-los se não houver antes atravessado e entrado na espessura dos trabalhos, sofrendo interna e externamente e sem ter primeiro recebido de Deus muitos benefícios intelectuais e sensíveis e sem prévio e contínuo exercício espiritual.


Tudo isto é, sem dúvida, insignificante; são meras disposições para as sublimes profundidades do conhecimento dos mistérios de Cristo, a mais alta sabedoria a que se pode chegar nesta vida.


Quem dera reconhecessem os homens ser totalmente impossível chegar à espessura das riquezas e da sabedoria de Deus! Importa antes entrar na espessura das labutas, suportar muitos sofrimentos, a ponto de renunciar à consolação e ao desejo dela. Com quanta razão a alma, sedenta da divina sabedoria, escolhe antes em verdade entrar na espessura da cruz.


Por isso, São Paulo exortava os efésios a não desanimarem nas tribulações, a serem fortíssimos, enraizados e fundados na caridade, para que pudessem compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento, a fim de serem cumulados até receber toda a plenitude de Deus (Ef 3, 17-19).


Já que a porta por onde se pode entrar até esta preciosa sabedoria é a cruz, e é porta estreita, muitos são os que cobiçam as delícias que por ela se alcançam; pouquíssimos os que desejam por ela entrar.