quarta-feira, 6 de maio de 2015

A LITURGIA: IMPORTÂNCIA DE UM TEMA QUE NADA DIZ AO “HOMEM MODERNO”

Juan Miguel Ferrer[1]

1. Paradoxos do homem de hoje

É sempre arriscado sintetizar em poucas palavras a complexidade dos fenômenos humanos e sociais. Não obstante, para poder situar nossas reflexões desta tarde, creio necessário oferecer um esboço rápido de como eu vejo o “homem moderno”, entendendo por tal a nossos contemporâneos, homens e mulheres, do leste e do oeste, do norte e do sul.
Alguém diria que é impossível, que as situações culturais são tão diversas, mas isso, hoje, em meio a um mundo globalizado cultural e informativamente, (como vocês sabem melhor que eu), é só aparentemente certo. As diversidades ainda nos diferenciam, mas as linhas mestras nos entrelaçam a nível mundial, tanto como a comum natureza humana com seus impulsos e desejos compartilhados.
O ser humano hoje aparece profundamente inseguro e desorientado. Perdeu, em grande medida, suas certezas e seus pontos de referência. O relativismo e a liberdade, entendida como pura liberdade de opção, têm estas inevitáveis consequências. Na medida em que estas tendências foram tomando força não se substituiu os referênciais institucionais, matrimônio e família, pátria, religião... simplesmente, se perderam.
A esta “deriva cultural” deve-se acrescentar, creio eu, a linha transversal do sofrimento. Há muita solidão, muita insatisfação, muita desesperança. Nossa sociedade, nossos contemporâneos, estão transpassados, de modo muito universal, por um profundo mal-estar ou “angústia”, um tema sobre o qual hoje já se escreve pouco, mas que preocupou os pensadores existencialistas do pós-guerra (segunda metade do século XX), e que se detecta como fenômeno característico da humanidade contemporânea. Os desequilíbrios sociais, as guerras e a presente crise vêm consolidar este mal.
Ante esta situação, (o ser humano não pode subsistir assim), emergem com força na cultura contemporânea fenômenos paliativos, que querem evitar os efeitos destes males sem a pretensão de tocar suas causas (que consideram irreversíveis). Seja pela via do individualismo hedonista, seja pela via de um inconformismo revolucionário, ou de um cientificismo prático, se quer conseguir um “instalar-se comodamente no mundo, no imanente”. Não deixar de menos nem a verdade, nem a continuidade histórica que oferecem as instituições. Não ter nenhum limite para os próprios desejos, nem dos deuses, nem de leis humanas, nem da natureza.
Mas por trás de tudo isto tem que haver um porquê. As ideias ilustradas, os ateísmos, teóricos ou práticos, sempre existiram, mas o fenômeno que caracteriza a época presente, e que vem tomando força desde o final da Grande Guerra (1914-1918), é do ateísmo de massas, que, hoje, começa a ser um fenômeno planetário. Um ateísmo, evidentemente mais prático que teórico, mas de omissão que de negação, muito unido ao fenômeno do agnosticismo. E estas massas agnósticas são caldo de cultivo para uma sociedade e uma cultura como a que agora está se impondo por todo o mundo. Uma cultura que até chega a ver o religioso já não como dimensão natural do ser humano (“homo religiosus”, ser religioso), mas como patologia social. As religiões vão sendo consideradas pouco a pouco como perigo para a paz e a convivência social. Tolera-se socialmente a fé pessoal, mas se limita e repudia a religião enquanto fenômeno social. Como se pôde chegar a este estado de opinião? Como, quando ainda altíssima porcentagem da população se atribui uma confissão religiosa? Como, quando cada domingo em países como Espanha e Portugal milhões de pessoas se reúnem para participar da Missa? Como, quando as manifestações de piedade popular e os santuários de peregrinação acolhem multidões em número crescente?
É certo que vivemos fenômenos contraditórios e que onde a religiosidade popular é mais forte supõe um freio aos processos de secularismo cultural. Mesmo que pese o fenômeno de viver cotidianamente como se Deus não existisse, difunde-se inexoravelmente. Muitas expressões tradicionais de fé, que envolviam a vida social e a cultura, vão sendo separadas de seu “sentido religioso” para conservar somente um valor folclórico ou de tipismo.
Um fator, no meu modesto entender, está muito ligado a este difuso “desafeto” com respeito a Deus e, em particular, ao Deus pessoal. Trata-se da experiência coletiva dos grandes desastres bélicos, da violência massiva contra inocentes e as consequências do emprego generalizado de armas contra a população indefesa. Experiências terríveis às quais fomos submetidos, em escala mundial, desde 1914-1918 e 1939-1945 e em seguida, a nível local, com incessantes conflitos ou guerras civis por quase todo o planeta, até hoje. E junto às guerras, as violências contra populações ou etnias inteiras por mãos de regimes totalitários, ditaduras corruptas ou grupos terroristas ou paramilitares. Males que brotam em grande medida desta civilização sem Deus, mas que provocam o desespero de muitas vítimas e de não poucos expectadores objetivos até chegar à rejeição de um Deus que permite tais coisas: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Sl 22,2; Mc 15,34).
Por outra parte, mesmo nas sociedades mais secularizadas e nos ambientes culturais mais laicistas (o que representa fundamentalmente o mundo mais desenvolvido economicamente e as sociedades de bem-estar hoje feridas pela “crise”) se produzem fenômenos sociais de ritualização (condutas-sinais) e de aparente transcendência (que buscam dar “sentido” ou superar as próprias insatisfações e limites). Seja com o auge de práticas exotéricas ou sub-religiosas (superstições), dos grandes espetáculos de massas (esportivos ou musicais) ou do recurso a usos sociais que implicam o consumo de substâncias como o álcool ou as outras drogas. E conforme se avança no esquecimento de Deus e da religião se desenvolvem mais estes fenômenos em escala social como novas religiões sem Deus. Mas parece que o ser humano necessita de ritos, festas e experiências que superam sua pura percepção empírica, tanto da realidade como de si mesmos.
Mas não quero terminar esta apresentação de conjunto de nosso mundo contemporâneo e das problemáticas humanas que suscita sem declarar minha valoração da mesma. Falei de um recurso coletivo a “práticas paliativas”, quer dizer, de fato uma nova forma de “alienação”, pois ante a falta de esperança e de sentido da vida, não se quer afrontar a questão de Deus, por considera-la, a priori, superada; nem a da religião, por tê-la como perigosa para a possibilidade de convivência pacífica ou para a salvaguarda da própria liberdade individual. Mas as pessoas que vivem imersas nessa cultura sem Deus não veem superadas suas ânsias e inquietudes, não encontram verdadeira esperança em tais curas analgésicas. Nossa sociedade começa a padecer endêmicas patologias espirituais e inclusive psíquicas. Se o puritanismo do século XIX, especialmente nas classes sociais mais altas, gerou segundo a escola psicanalítica patologias ligadas à repressão da sexualidade humana (seguindo S. Freud), nossa sociedade as está gerando em torno da repressão do instinto religioso do ser humano (vide o pensamento de Victor Frankl).
Muitos falam no Ocidente de um novo paganismo. O certo é que existem entre nossa sociedade contemporânea (que em grande parte “apostatou” do Cristianismo) e o Império romano do século I um grande paralelismo. A “religião dos romanos” havia se convertido em um ritualismo, ligado a usos sociais e a estruturas de poder, e as pessoas buscavam sair de sua insatisfação com as celebrações orgiásticas ou os espetáculos circenses carentes de uma “transcendência” ligada ao culto sagrado. Em tal contexto não faltavam minorias que buscavam tal “sentido religioso” nas religiões orientais (os cultos de “mistérios”). Muitos, ao chegar a Roma o cristianismo, o consideraram como outro destes cultos por suas semelhanças externas em ritos e linguagem. Mas logo o cristianismo mostrou sua originalidade, que o levou ao conflito com o poder romano. E a diferença entre aqueles mistérios e o cristianismo estava na natureza do culto, como frente à religião oficial do Império. Por isso, naquele momento inicial, os cristãos protegeram sua liturgia com a lei do arcano (do segredo).
O que é evidente é que no contexto cultural atual a questão do culto cristão, da liturgia, está no “olho do furacão” do diálogo ou relações entre a Igreja e a sociedade contemporânea. Assim o entendeu o Concílio Vaticano II como o declara solenemente no primeiro número da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC) sobre a divina liturgia.

2. Na “definição” do cristianismo, liturgia e revelação

Chega o momento de falar da liturgia, do culto a Deus próprio dos cristãos, que para distinguir-se geralmente recebe este nome frente ao genérico de “culto” comum a todas as religiões. E a originalidade cristã no culto anda de mãos dadas com sua originalidade enquanto religião em si mesma. O cristianismo começou da religião judaica e sua novidade se apoia no conceito de revelação. Conceito que precede à existência mesma de um “livro” como expressão ou custódia de seu conteúdo (Vide a Constituição Dei Verbum (DV) do Concílio Vaticano II).
E na revelação o primeiro que emerge é um Deus que busca o ser humano, que lhe oferece amor e amizade, e que toma a iniciativa em tais relações. Este Deus se dá a conhecer interatuando com os seres humanos e sua liberdade, nos limites do amor e da amizade, que não podem se impor pela força, mas que abrem à doação total de si mesmo. A revelação gera assim uma religião histórica onde o “mito” fica como mero estilo literário ou recurso linguístico (linguagem sacra), mas são os acontecimentos e as pessoas (“amigos de Deus” e profetas) os que contam verdadeiramente. Surge o conceito de história da salvação e com ele a definição precisa do objeto de uma esperança certa, a consumação de tal história.
Para o povo de Israel no culto se encaminha à esperança e é memória de personagens e acontecimentos históricos que, por seu encontro com Deus, por ser de Deus, têm uma perene atualidade à qual os homens ascendem pelo mesmo rito sagrado. Israel reza e celebra fazendo memória e sua fé é narração dessa mesma história e renovação desse mesmo encontro pessoal e comunitário com Deus. O grande conceito é o memorial.
Os cristãos entram nesse processo histórico precisamente no momento no qual, por meio de Jesus Cristo, Deus o leva à plenitude. Cristo é a plenitude dos tempos. Sua pessoa e obra, seu acontecimento recapitula a história da salvação. Cristo colma a esperança de Israel e é a plenitude de sua religião, Cristo é o protagonista do novo culto até a consumação dos tempos (ideias chaves da Carta aos Hebreus e do Livro do Apocalipse no Novo Testamento). Por isso como sucedia primeiro entre os judeus, assim também agora para os cristãos a fé é essencialmente encontro pessoal e aceitação do Deus que se revela e revelando-se nos santifica, leva à plenitude nossa criação-vocação. E este encontro pessoal tanto para judeus como para cristãos se dá na celebração litúrgica do povo de Deus.
Seja para o povo de Israel, seja para os cristãos, a fé é um acontecimento pessoal que se realiza e alcança na comunidade crente convocada por Deus, que constantemente se dá a conhecer a ela operando na sua salvação. Sinagoga (antes a assembleia de Deus) e Igreja são os lugares da fé. Seguindo nosso discurso como cristãos diremos que a Igreja (Mistério) é o lugar onde constantemente Deus chama, fala e atua na vida dos homens. E a Igreja se manifesta especialmente quando se reúne para celebrar os divinos mistérios.
A aceitação do amor/amizade de Deus, insistirei, é uma decisão absolutamente pessoal e livre, segundo o modo de atuar de cada idade e das qualidades e circunstâncias de cada um, mas é possibilitado, se objetiva e amadurece na “Igreja em oração”. Esta Igreja é a una, santa, católica e apostólica. É a do céu e da terra, mas se comunga com ela em cada comunidade sacramental, especialmente eucarística. Em seguida se vive na Família cristã (Igreja doméstica) e em outros âmbitos comunitários eclesiais de diversa densidade sacramental, Diocese, Paróquia, Comunidade religiosa, Associação ou Movimento,...
A compreensão da fé cristã caminha, como se vê, muito unida à compreensão da Igreja como Mistério (Lumen Gentium 1-8) e da liturgia como Obra de Deus (SC 5-10 e Catecismo da Igreja Católica, n. 1077-1112 “Liturgia obra da Santíssima Trindade”). E a configuração da liturgia não se entende senão ligada ao que foi a Divina Revelação.
Como Bento XVI expressou com genialidade em seu discurso ao clero de Roma (quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013): a ideia do Concílio de uma Igreja “de comunhão”, mais que interpretada sociológica ou politicamente, se há de entender a partir da Eucaristia, isto é, litúrgica e sacramentalmente, em perfeita continuidade como desenvolvimento e clarificação do conceito de Igreja corpo místico e Igreja povo de Deus.
O conceito ritualista de liturgia fica superado totalmente pelo Magistério em um processo clarificador cujos últimos passos estão na Encíclica Mediator Dei (Pio XII), na Constituição Sacrosanctum Concilium (Vaticano II) e no Catecismo da Igreja Católica (João Paulo II, com uma grande contribuição do então cardeal Ratzinger). E sua consideração como beleza se agora mais e mais na ordem dos transcendentes deixando de lado uma pura consideração sensual/sensível.
O que acontece é que esta “verdade da liturgia”, este genuíno “espírito do cristianismo” não deixaram de calar na consciência coletiva dos católicos e menos, está claro, na dos observadores externos do fenômeno cristão. Por isso a ideia chave que o Magistério papal vem difundindo desde o Sínodo extraordinário de 1985 e, por parte do Beato João Paulo II desde Vicesimus Quintus anus (VQA, Carta nos 25 anos da SC) é que substancialmente já está feita a reforma litúrgica do Vaticano II, que se encontra nos novos livros litúrgicos (sempre susceptíveis de atualizações e “retoques”). Mas a grande tarefa ainda por fazer é a da renovação litúrgica, que é tarefa da “formação” e do “aprofundamento espiritual”. Trata-se de que os bispos, sacerdotes e fiéis todos conheçam a verdade da Liturgia e vivam-na mediante uma participação plena e frutuosa na mesma. Este é o desafio da evangelização (na linha expressa por Paulo VI em Evangelii Nuntiandi , de harmonia entre evangelizar e sacramentar; que vale para a evangelização, para a missão e para a nova evangelização) e este é o desafio da iniciação cristã. Aqui convergem as três grandes preocupações do Concílio Vaticano II e do sentir da Igreja Universal expresso principalmente nos Sínodos dos bispos, celebrados depois do Concílio, e muito particularmente nas sucessivas exortações apostólicas de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI depois dos mesmos.
A celebração litúrgica não pode reduzir-se pois a um encontro formativo (ainda que seja), nem a uma oração pública (ainda que seja sua forma mais completa e fundamento e escola de toda oração cristã), nem a um momento festivo da comunidade (ainda que se expresse como a festa mais autêntica dos crentes); a Liturgia é Deus conosco. É presença e comunicação do amor que Deus é. É experiência humana transcendental (aqui está a realidade fundante de toda mística cristã). Nela nasce e se desenvolve cada cristão e a própria Igreja, a partir da comunhão com/em Deus. É penhor e antecipação da vida eterna. Nela, como já ensinou com tanta agudeza santo Tomás de Aquino (cf. CEC 1130, nota 48), passado e futuro se “comunicam” em maravilhosa atualidade de presença para fundar a fé no acontecimento histórico, na consciência pessoal atual e mostrar sua plenitude de graça e fim, que se faz real e universal (aberta a todos) vocação à santidade (CEC 1130. 1136-1139; ler em relação com LG 5, n. 39-42).
Quem deseja conhecer verdadeiramente o cristianismo há de conhecer e se interessar por seu conceito teológico de Liturgia, quem deseja provar o genuíno espírito cristão ou viver o verdadeiro sentido dos ensinamentos vertebrais do Concílio Vaticano II deverá entrar no ensinamento e vivência eclesial da Liturgia.

3. Alguns traços do cristianismo que afloram em sua liturgia

Sem pretender esgotar esta via de aproximação ao mistério cristão a partir da Liturgia, se quisermos pôr em evidência alguns traços importantes do cristianismo que ficam mais claros compreendendo e observando sua Liturgia, partirei para isto da definição/descrição da Liturgia que oferecida pela SC em seu número 7:
“Assim, pois, com razão se considera a liturgia como e exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo em que, mediante sinais sensíveis, significa-se e realiza-se, segundo o modo próprio de cada um, a santificação do homem e, assim, o Corpo místico de Cristo, isto é, a cabeça e seus membros, exerce o culto público”.

A) O exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo

Pode traduzir-se também como a atualização de seu Mistério Pascal. O sacerdócio de Cristo é único e eterno. Começa no momento mesmo da encarnação e é seu traço que o define. Na unidade de sua Pessoa divina (seu “eu”) se associam, sem mescla nem separação, sua natureza divina, que o une ao Pai e ao Espírito, e sua natureza humana, que o une a nós. Seu próprio ser é reconciliador e comunional, é a declaração do amor e do perdão de Deus em favor da “descendência de Adão”. Conhecer o mistério de Cristo e de seu “sacerdócio” é conhecer o desígnio de Deus sobre a humanidade e contemplar sua realização já culminada. Todo o conteúdo da fé sintetiza-se aqui.
Não é em vão que os orientais chamam a celebração litúrgica de teologia primeira (enquanto principal “depósito” dos conteúdos da fé e primeira “apropriação” dos mesmos por parte dos crentes, no uso de suas faculdades de contemplar, conhecer e refletir). A Liturgia se apresenta como o crisol da tradição. Nela a fé da Igreja une Palavra de Deus, contribuições do Magistério, ensinamentos dos padres, escritores eclesiásticos e teólogos, que celebram e contemplam a Obra de Deus, no correr dos séculos. Não é de estranhar como os pastores da Igreja, individual e colegialmente, no Oriente e no Ocidente, expressaram sempre uma particular atenção e vigilância sobre a Liturgia, e, na tradição católica, o papa se reservou uma peculiar tutela sobre a mesma (como recordou a SC n. 22).
A vida e obra de Jesus de Nazaré é o desenrolar desse “mistério”, até culminar em sua paixão, morte e glorificação, como mostram os evangelhos, (particularmente o de são João) e se descobre ao longo de cada Ano Litúrgico (ciclo temporal) e na celebração dos sacramentos e sacramentais. Seus “mistérios” são os passos do dar-se a conhecer e tornar acessível seu “Mistério”, e tudo isto é o que se “atualiza/exercita” nas ações litúrgicas da Igreja.
Contudo, há um ponto chave em todo este discurso sobre o “sacerdócio” de Cristo: a Encarnação. O ser humano não tem em “Adão” sua referência principal. Adão é uma garantia de um projeto de Deus criador que visa a Cristo. Cristo será pois o novo e verdadeiro Adão. A cristologia será pois a peça chave da antropologia cristã e a salvação que Jesus Cristo traz, como fruto de seu ser e fazer sacerdotais (Soteriologia), da chave da verdadeira vocação e evolução humanas. Toda a primeira Encíclica do Beato papa João Paulo II, Redemptor Hominis é uma magistral exposição destes princípios. Cristo, e eu diria Cristo sacerdote, é a chave para descobrir a verdade do ser humano e de sua esperança (cf. Bento XVI, Spe Salvi).
A humanidade de Cristo é a base da “sacramentalidade cristã” e permite compreender o altíssimo valor que tem na tradição bíblica a natureza humana e, em particular, o corpo humano. Uma visão que se reforça ao longo da História da salvação e culmina com a Ressurreição de Jesus Cristo, fundamento da fé na ressurreição da carne dos cristãos. O enfraquecimento desta fé entre os crentes e o esquecimento na sociedade, com a crescente difusão de concepções reencarnacionistas ou aniquiladoras, anuncia o ocaso do ser humano e de sua dignidade, ligado a afastar-se da verdade revelada. A Liturgia se fundamenta no fazer sacerdotal de Cristo mediante sua humanidade, mediante seu corpo (por isso ligada a realidades históricas e culturais muito concretas, que estão associadas à base da universalidade de seu valor).
Na Liturgia cada ser humano se encontra com Deus e com os irmãos de um modo “sacramental”, por meio do “corpo”, no qual atua e se manifesta a ação de Deus tornada possível por Jesus Cristo e por seu Espírito Santo presente na Igreja. Em grande medida a ação litúrgica reintegra o ser humano em sua rica realidade, corporal e espiritual, pessoal e social.

B) Mediante sinais sensíveis

Criação, Revelação e Liturgia põem em evidência o nexo entre Deus e a Natureza e o papel de “Pontífice” (fazedor de pontes) que ao ser humano corresponde no desígnio divino. Papel que, como vimos brevemente, encontra seu cume no Sacerdócio de Jesus Cristo. A tradição bíblica liga a vocação do ser humano à noção de natureza, podemos dizer do cosmos, como paraíso. E esta visão recorre e encharca toda a História da Salvação com momentos peculiarmente bonitos como se refletem no Cântico dos cânticos ou no Livro do Apocalipse. O pecado significa a “expulsão” do paraíso, cada passo da História da Salvação é um recuperar o paraíso, recuperar a harmonia divina entre o ser humano e o mundo, entre criação e criador, no ser humano.
Toda a “pré-sacramentalidade” do caminho religioso de Israel prepara a sacramentalidade cristã. Os sinais da Liturgia expressam a reconciliação cósmica. A grande ecologia divina. A celebração litúrgica se converte em uma grandiosa ópera, onde pelo sensível se chega ao amor do invisível e no tempo se saboreia a eternidade. Todos os sentidos do ser humano, janelas abertas ao mundo, se purificam e descobrem a consagração do grande templo da criação. Tudo o que foi ocasião de idolatria, a partir do corpo, os elementos da natureza e suas forças, se convertem em instrumentos que fazem ressoar a glória de Deus, enquanto são instrumentos da santificação dos seres humanos. Que distante da pobre visão nominalista de uma escolástica em decadência ou do olhar luterano para a liturgia! A verdadeira festa dos sentidos não está no frenesi do hedonismo ou dos cultos pagãos, mas no estalido pascal do mistério da Liturgia.
Agora todo o passado dos arquétipos coletivos do subconsciente, dos quais falou o psicólogo Jung, toda a linguagem dos mitos e das religiões naturais, tão estudada por Mircea Elíade, encontra sua plenitude em uma Palavra que se cumpre na história, em sinais que realizam o que significam, em uma esperança que se experimenta já cumprida enquanto se avança para a sua culminação.
Tudo isso tem muito a ver com a sã “mundanidade” do catolicismo, entendida como seu amor apaixonado pela plenitude do ser humano, por seu corpo e por suas obras, e também como amor apaixonado pela criação, que é boa e que tem por vocação, como bem se mostra na Liturgia, ajudar ao ser humano a ser bom, enquanto encontra nele sua plenitude (recordemos a frase do prefácio da atual oração eucarística IV do Missal Romano: “...e por sua voz todas as demais criaturas”, referida à voz cultual da Igreja, que no canto do “Santo” se associa ao céu e também à criação inteira para louvar a Deus).

C) Pela santificação do homem se oferece o culto público íntegro

A “glória de Deus é o homem vivente” afirmou santo Ireneu de Lião, quer dizer, o que agrada e reconhece a grandeza de Deus é a santidade do ser humano, sua plena manifestação como filho de Deus, o levar à conclusão o que está contido em ser “imagem e semelhança de Deus”. A Liturgia contém e nela se realiza este fazer o ser humano santo-filho de Deus. Na Liturgia se faz presente o acontecimento que verdadeiramente muda a vida de cada ser humano e da humanidade inteira. Por isso na Liturgia se dá a causa da felicidade e da vida, oferecidas a todo ser humano. A Liturgia não pode pois senão revestir a forma da festa, mas não de qualquer festa, da única e plena festa. Tal caráter não brota dos costumes festivos, estes pelo contrário devem brotar da experiência de conversão e de fé que é a base da participação litúrgica e da realização festiva.
A festa litúrgica tem uma força tal que pode converter a própria experiência da enfermidade grave em realidade salvífica (pensemos na Unção dos enfermos) ou o drama do mal e do pecado em graça e perdão (como o caso da confissão e reconciliação) ou a própria realidade dramática da morte em esperança certa de vida eterna e de ressurreição (tal como se vive as exéquias cristãs).
Sem “acontecimento” (entende-se favorável e de irradiação) não pode haver festa. E a consistência do acontecimento manifesta-se na riqueza expressiva e na duração da festa. A Páscoa, o Mistério de Cristo em sua totalidade são o centro da história e deram lugar às mais ricas expressões festivas da cultura humana que, ao longo dos séculos, seguem sendo celebradas por toda a terra dia após dia.
Porque o acontecimento que é Jesus Cristo é tal que nos cristãos estivemos e estamos sempre em festa. Claro que sendo isto humanamente, por enquanto impossível, a festa se condensou hierarquicamente em momentos e dias significativos, o que deu lugar ao Ano Litúrgico e à chamada Liturgia das Horas. Creio que esta concepção da vida, talvez “pouco produtiva” economicamente, marcou até pouco tempo os povos católicos (mais ainda ao unir-se aos fatores geográficos e climáticos do mediterrâneo).
Na concepção cristã do tempo e da festa culmina a antiga concepção romana de um ócio com dignidade, que correspondia a algo muito distinto da vadiagem, mas também algo muito distante do economicismo utilitarista e produtivista que hoje nos asfixia. O ócio com dignidade tem seu parentesco no conceito do descanso operoso divino e na atitude contemplativa dos sábios clássicos. Neste contexto o “negócio” aparece como um conceito subordinado e até mesmo negativo, neg-ócio (não-ócio).
A concepção litúrgica do tempo bíblico proporcionou à nossa cultura a semana com um dia singular de descanso, de festa, entre nós o Domingo (festa primordial dos cristãos segundo a SC; sobre seu valor cf. a carta Dies Domini do Beato João Paulo II). E junto a ela a presença “gratuita” das festas de Cristo, da Virgem ou dos santos, festa fixas ou móveis que pertencem o calendário cristão. O mundo moderno, e mais em tempos de crises, as vê como uma ameaça. Até o Domingo se vê fortemente como dia universalmente festivo. Tudo são exigências de um modelo de crescimento econômico “desenvolvimentista” que promete os frutos do “bem-estar”, mas onde fica o ser humano? Que posto corresponde ao bem comum neste modelo econômico? Já Bento XVI indicou seus reparos ante tal modelo em sua mensagem passada na Jornada Mundial pela Paz (1º de janeiro de 2013), seguindo o rastro de toda a Doutrina Social da Igreja e de sua primeira encíclica Deus Caritas est.
O mundo pagão, como a maior parte das religiões naturais, não possui um rito festivo semanal (e muito menos diário), as festas geralmente se reduzem a um dia ou dias em determinado momento do ano. Muito disso fica, mais ou menos cristianizado, em torno de algumas manifestações de religiosidade popular. O mundo secularizado também busca alguns tempos de festa, necessita de festas. Curiosos foram os esforços dos totalitarismos por um calendário secular de festas depois do falido intento dos revolucionários franceses. Mas hoje, superadas as ideologias, é o economicismo o que delineia um mundo onde pela primeira vez a festa tende a “privatizar-se”, para não dificultar,  mas favorecer o consumo e a produção, e a festa se distancia mais do acontecimento e se vincula às expressões exteriores da celebração e chega-se a propor, na falta do mesmo, a alucinação ou a ficção como alternativa.
Não se impôs ainda tal modelo entre nós, mas vai tomando força frente ao que resta de cultura cristã no Ocidente. Mas creio que valha a pena estabelecer onde nos leva esta deriva economicista e laicista.
O mais terrível é, como esta mentalidade pôde “infectar” o conceito cristão de participação litúrgica. São muito negativos os efeitos do esquecimento do acontecimento (que é esquecimento das dimensões de fé e conversão) na Liturgia, a favor das puras ações externas (ativismo ou, em outros casos, ritualismo). O tédio, o desinteresse ante a Liturgia, não depende tanto da dificuldade para compreender sua linguagem, ou da distância cultural entre quem as formularam e quem hoje a celebra. Essas coisas podem ser superadas com a adequada formação e adaptação. O grande problema está em confundir sua “natureza”. Esquecer quem é seu “ator” principal e não ter presente o “acontecimento”, que realmente se faz presente, com sua transcendência para cada um e para a comunidade inteira. O problema é pois de fé e de “orientação”. A Liturgia não é o algo a mais com respeito à vida cotidiana. É o sal dessa vida. E se este “se torna insosso”...
Entrar na Liturgia, celebrar, é introduzir-se na dimensão fundante da realidade, superando toda superficialidade ou rotina. Entrar na celebração implica sempre uma iniciação que se atualiza e uma graça (a celebração é um dom). Os átrios, os portões das igrejas querem nos recordar (como ensina o Catecismo, n. 1186). A celebração se articula, por sua vez, ritualmente, não se inventa, não se improvisa; o rito é um caminho já traçado, mas cada pessoa e cada comunidade deverá fazê-lo pessoalmente. Essa imutabilidade é um recurso pedagógico, não para instigar a rotina, mas para deixar livres as potências para a acolhida atual da graça que é o verdadeiramente sempre o novo da celebração. E o ritual é gradual, integra diversos momentos e passos que, pouco a pouco, nos conduz ao cume da celebração. Nem todos na celebração podem ser iguais ou ter o mesmo significado.
As ações litúrgicas cristãs situam seu cume no momento do encontro sacramental com Cristo, não se trata de uma simples noção, de uma mensagem a transmitir, mas de um encontro interpessoal, de um encontro entre o homem e Deus. Por isso não bastam os meios de comunicação para uma verdadeira participação litúrgica, é necessário a presença ritual, o contato. E este encontro pessoal não deixa nunca de ser uma teofania, ainda que Deus chegue a nós mediante a Igreja e através dos modestos sinais sacramentais. Por isso a celebração não pode perder de vista seu centro divino nem esquecer as exigências antropológicas da verdadeira experiência sobrenatural. A Liturgia precisa por isso, como de algo peculiar, do silêncio e das atitudes físicas e mentais de adoração. Também nos sinais se manifesta a gradualidade do rito. Os diversos livros litúrgicos cristãos, com a previsão de textos e gestos, vêm servindo a todos estes requerimentos da natureza da Liturgia. Sua história nas diversas famílias litúrgicas do Oriente e do Ocidente merece sempre um cuidadoso estudo. E nelas sempre se cuidou do espaço para expressar as dimensões do tremendo e fascinante da realidade sagrada.
É verdade que Cristo já ganhou para Deus o universo inteiro. Que o sagrado não se esconde  em um nicho (fano) enquanto o caos domina o mundo externo por inteiro (profano), mas que tudo já é, em penhor, sagrado. Mas esta sacralidade está submetida, até a parusia, a um ocultamento que vai desvelando-se paulatinamente. Enquanto isso o cristão vive o sagrado sacramentalmente. Manifesta-se nos sinais e ritos cristãos e manifestando-se avança para seu pleno desvelamento. Por isso agora o sagrado não se opõe ao profano, é a revelação da verdade oculta do profano, a manifestação de sua “vocação” e plenitude. Os cristãos com sua Liturgia e com sua vida vão incluindo tudo no desígnio salvador de Deus e assim se opera o verdadeiro progresso do ser humano da criação inteira. É o sentido da Liturgia das Horas e das diversas Bênçãos, que evidenciam as consequências da Páscoa de Cristo em todas as realidades do mundo e da vida e atividades humanas.
Tudo isso nos ajuda a compreender uma afirmação precisa e fundamental  do Concílio, quando diz na SC, n. 10:
“a liturgia é o cume ao qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda sua força... da liturgia, sobretudo da Eucaristia, emana para nós, como de uma fonte, a graça e com a máxima eficácia se obtém a santificação dos homens em Cristo e a glorificação de Deus, a qual tende todas as demais obras da Igreja como a seu fim”.
Completando assim o que se disse no número 7:
“[a celebração litúrgica]... é ação sagrada por excelência cuja eficácia, com o mesmo título e o mesmo grau, não iguala nenhuma outra ação da Igreja”.
Sendo que a participação na ação litúrgica requer uma preparação prévia (SC 11 e 15-20), a ação encerra também, em si mesma, um grande ensinamento (SC 33-36) e possui inclusive, face aos crentes de outras religiões ou ante os não crentes, uma forte dimensão apologética: mostra a genuína  natureza da Igreja (SC 2), seu Mistério e estrutura hierárquica (LG 26) e sua essencial missão evangelizadora (CEC 1332, 849-851).

4. Perspectivas da Liturgia hoje

Quando nossa reflexão sobre a Liturgia vai se concluindo não posso menos que me perguntar: e para onde caminha hoje a Liturgia da Igreja? O Sínodo extraordinário de 1985 ofereceu duas orientações nesta matéria: a primeira que a Igreja se esforçasse por recuperar em sua Liturgia o valor do sagrado (a dimensão religiosa da Liturgia; o primado de Deus); em segundo lugar que se cuidasse da catequese de tipo mistagógico. Aos 25 anos do Concílio João Paulo II em VQA indicava duas linhas para a tarefa litúrgica da Igreja, um grande empreendimento de formação e o desafio da adaptação e inculturação.
Nestes outros 25 anos transcorridos, e especialmente durante o pontificado de Bento XVI e após seu motu próprio “Summorum pontificum”, falou-se muito de reforma da reforma e inclusive de involução litúrgica (ou restauracionismo). Mas tudo isto deve-se matizar muito, se formos à letra e intenção das determinações do papa Ratzinger. Sua posição ficou clara em sua obra litúrgica, publicada no primeiro volume editado de suas obras completas e no magnífico discurso ao clero de Roma na quinta-feira 14 de fevereiro de 2013. No motu próprio “Quaerit semper”, reformando a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos dizia também com claridade que queria que esta se dedicasse, como a sua tarefa prioritária, a “promover a renovação litúrgica segundo a Sacrosanctum Concilium”.
A Congregação quisera por isso suscitar uma nova aparição do movimento litúrgico que provocasse as condições para uma grande empresa de formação em todos os níveis (bispos, professores, sacerdotes e consagrados, fieis em geral, adultos, jovens e crianças) e um forte desejo por cuidar do que se refere ao culto divino, sua verdade, esplendor e a participação completa e frutuosa de todos no mesmo. Assim como uma insistência na dignidade da celebração que se converta em verdadeira ars celebrandi, que instigue em todos a genuína participação. Participação que exige os oportunos níveis de adaptação e inculturação, que vão desde a presença de algumas traduções em língua vernácula (totais ou parciais da liturgia) a grandes mudanças como as do apêndice zairense ao Missal Romano (salva a unidade substancial do Rito Romano: cf. SC 38), mas que sobretudo requer o reconhecimento e aceitação, como vimos, da genuína natureza da Liturgia e sua assunção como fator determinante da vida cristã.
Detrás de muitos defensores das “antigas formas” do culto católico há não pouco de formalismo ou de esteticismo; detrás de muitos apaixonados pela “nova liturgia” há não poucos que não consideram o valor da tradição ou o sentido da Liturgia. Todos devemos nos encontrar, dentro das legítimas sensibilidades espirituais ou teológicas, na verdade que a Igreja professa sobre sua Liturgia tal e qual ensinou o Vaticano II na Sacrosanctum Concilium ou como o faz o Catecismo da Igreja Católica, em segunda parte dedicada à “Celebração do Mistério da Fé”.
Como indicamos, ao longo da presente exposição, fica claro que no centro da ação da Igreja está a Liturgia, que o núcleo da dita Liturgia é a celebração da Eucaristia e o momento culminante, envolto em adoração e silêncio, de cada Eucaristia está na Oração Eucarística, com o relato da instituição, a Consagração, e a comunhão. E hoje, no mundo inteiro, o movimento que aglutina maior número de fiéis é precisamente o da adoração eucarística, que nasce da celebração e participação, e prolonga a adoração e o silêncio de acolhida, fundando na rocha, a vida cristã e sustentando toda evangelização e caridade. Um movimento suscitado pelo Espírito Santo, que permitiu ao papa Bento XVI falar de uma primavera eucarística na Igreja. Tais forças e iniciativas terão que ser acompanhadas e tuteladas pelos pastores da Igreja, para que não se corrompam e cheguem a produzir frutos esplêndidos.
A Igreja de Comunhão do Vaticano II produzirá seus esperados frutos, entre perseguições e provas, como sempre foi, quando Igreja em oração e adoração, Igreja que fecunda as sementes da comunhão e o dom divino no silêncio da adoração e no louvor gozoso do culto. Como reflete maravilhosamente os números 83-88 da SC, falando do Ofício Divino, a Igreja do Concílio é uma Igreja Mistério, Igreja de santidade e de louvor e adoração a Deus, que assim se faz instrumento de unidade e de paz entre os homens e testemunho de um amor que comparte com todos, com sensibilidade e parresia (levando-lhe assim a Palavra e os Sacramentos, o Dom de Deus em Cristo). É a Igreja que reflete com acerto o livro dos Atos dos Apóstolos (2,42): “E perseveravam no ensinamento dos apóstolos, na comunhão, na fração do pão e nas orações”. E esta Igreja, longe de ser medrosa e estéril foi Igreja de caridade, evangelização e martírio. E assim se repetiu ao longo da história. Aqui estão as chaves da regeneração e da evangelização, aqui o segredo da vitalidade das comunidades, de sua capacidade de fazer novos cristãos e de suscitar em seu seio vocações aos diversos estados de vida.
Como confessa o primeiro número da Sacrosanctum Concilium, primeiro documento do Vaticano II, seu cuidado e promoção, são a chave de toda renovação eclesial, e ao mesmo tempo, o princípio da atuação de uma Igreja que quer amar e santificar o mundo, hoje.





[1] Mons. Juan Miguel Ferrer, subsecretário da Congregação para o Culto Divino e a disciplina dos Sacramentos, explica o valor que tem a liturgia – segundo o Concílio Vaticano II – para responder ao mundo moderno. Cristo está presente na ação litúrgica, que possui uma força capaz de atrair e transformar a criação inteira. “A Igreja evangeliza e se evangeliza a si mesma com a beleza da liturgia, a qual também é celebração da atividade evangelizadora e fonte de um renovado impulso oblativo” (papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium).

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Homilia do 6º Domingo da Páscoa

“O maior amor é dar a vida”

Pe. Luiz Carlos de Oliveira, C.Ss.R.

O Pai é a fonte do amor

            Amar é viver o relacionamento que o Pai tem com o Filho no Espírito. É a identidade de Deus, pois Deus é amor. Esse amor Ele comunicou a nós quando nos entregou seu Filho. Nós temos o amor erótico (eros) no qual dominam os sentidos. Temos amor amizade (filia) que está presente em nossos relacionamentos. O amor que há Deus é ágape. Vivendo esse amor vivemos mais intensamente e com mais proveito e por mais tempo que o amor erótico e o amor de amizade. Celebramos a Páscoa de Jesus em sua Morte, Ressurreição e Glorificação. Com o início do tempo do Espírito, a Palavra de Deus proclamada anuncia que o amor é o conteúdo do ensinamento de Jesus. Sua vinda ao mundo foi motivada não por nossa necessidade, mas porque o Pai amou primeiro: “Nisto consiste o amor de Deus entre nós: “Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos o seu Filho como vítima de reparação por nossos pecados” (1Jo 4,9-10). O amor de Deus veio primeiro porque Deus é fonte do amor. Quem ama nasceu de Deus, pois Deus é amor (7). O Filho ama como o Pai O ama. O amor que nos transmite e ensina a viver, Ele o aprendeu do Pai. Quando amamos como Deus ama, nosso amor é Divino, mesmo sendo o amor carnal e o amor de amizade. Jesus manda que permaneçamos no seu amor, como Ele permanece no amor do Pai. O amor que o Filho teve por nós é sua entrega de vida até a última gota de sangue e até o último suspiro.  O amor Divino é aquele que se entrega e se põe a serviço de todos esperando uma única recompensa: amar mais e até o extremo do amor, como Jesus (Jo 13,1). O que mais ama é aquele que dá a vida: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 5,13). Por esse amor entramos nos segredos de Jesus, pois somos seus amigos (Jo 15,15).

O amor aberto a todos

            Jesus enviou o Espírito para criar o novo mundo fundado na fraternidade aberta a todos. Normalmente temos sede de conquistar pessoas para nossa Igreja e que ninguém fuja, pois consideramos que ali está toda ação de Deus. Fora dela tudo é do mal. Jesus não pensa assim, pois, Pedro, quando vai à casa do pagão Cornélio, diz que “Deus não faz distinção de pessoas. Pelo contrário, aceita quem O teme e pratica a justiça, qualquer seja a nação a que pertença (At 10,34-35). Não só Pedro aceitou entrar à casa do pagão, como também o Espírito Santo veio sobre os pagãos que ali estavam. Eles tiveram seu Pentecostes, como os judeus convertidos. Jesus acolhe a todos pelo Espírito. Por isso o salmo aclama: “Os confins do universo contemplaram a salvação de nosso Deus” (S. 97).

Corresponder ao que celebramos

            Nas orações (eucologia) da liturgia deste sexto domingo suplicamos “que nossa vida corresponda aos mistérios que recordamos” (oração) que são “o sacramento do amor de Deus” (oferendas), pois o mistério de Cristo é expressão do amor de Deus. É esse mistério que celebramos na Eucaristia. Deus quer que produzamos frutos. O sacramento celebrado é o momento em que a Ressurreição de Cristo produz os frutos em nós, infundindo a força do alimento salutar da Eucaristia (pós-comunhão). Permanecer em Cristo, como o ramo está unido ao tronco é produzir frutos que permaneçam (Jo 15,16). O amor vivido é o mesmo amor celebrado. O mandamento do amor torna-se a fonte da vida e caminho de celebração. É o amor que se torna comunhão com o Corpo de Cristo e com os irmãos neste Corpo.

Leituras:Atos 10,25-26.34-35.44-48;Salmo 97; 1João 4,7-10 João 15,9-17

Ficha nº 1438 – Homilia do 6º Domingo da Páscoa (10.05.15)
 
1.    Amar é viver o relacionamento do Pai com o Filho no Espírito. Temos o eros, a filia e o ágape que é o amor de Deus.  Esse é o amor que Jesus nos mostrou na redenção. O amor de Deus veio primeiro e é fonte de todo amor. Amor é dar a vida.

2.    O amor dado por Deus é aberto a todos. Ninguém é dono dele. Deus não faz distinção de pessoas e dá o Espírito a todos, como deu aos pagãos na casa de Cornélio.

3.    Nas orações (eucologia) da celebração pedimos que nossa vida corresponda aos mistérios que celebramos. Esse mistério é o amor de Deus para que produzamos frutos. O amor é comunhão a Cristo e aos irmãos, pois todos vivem o mesmo amor.
      
A paixão pelo amor.

A paixão pelo amor produz frutos. Jesus, em suas palavras durante a Santa Ceia, insiste na verdade suprema do amor. O amor existe porque Deus nos amou. O amor que Jesus tem por nós é o mesmo que o Pai tem por Ele.  Amar é guardar os mandamentos do Pai, como Jesus guardou.
Deus deu dez mandamentos ao povo judeu. Jesus deu um mandamento só. Cumprindo este, todos os outros estarão realizados. Esse mandamento é a síntese de tudo o que Jesus fez e quis para nós: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Amor não é só sentimento, mas doação total de vida, como Jesus deu a vida.
Sem amor não conhecemos Deus, pois Deus é amor. O amor a Deus existe quando amamos os outros. Deus nos amou dando Jesus. Sabemos amar porque Deus nos amou primeiro e enviou seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.
            Jesus foi o maior amante do mundo. Amou todos e tudo que há no mundo, por isso deu o Espírito Santo aos pagãos.


domingo, 3 de maio de 2015

Texto do Ofício das Leituras da Festa (omitida este ano) de São Filipe e São Tiago



Do Tratado sobre a prescrição dos hereges, de Tertuliano, presbítero

A pregação apostólica

        Cristo Jesus, nosso Senhor, durante a sua vida terena, ensinou quem era ele, quem tinha sido desde sempre, qual era a vontade do Pai que vinha cumprir e qual devia ser o comportamento do homem. Ensinava estas coisas ora em público, diante de todo o povo, ora em particular, aos seus discípulos. Dentre estes escolheu doze para estarem a seu lado, e que destinou para serem os principais mestres das nações.
        Quando, depois da sua ressurreição, estava prestes a voltar para o Pai, ordenou aos onze – pois um deles se havia perdido – que fossem ensinar a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
        Imediatamente os apóstolos (palavra que significa “enviados”) chamaram por sorteio a Matias como duodécimo para ocupar o lugar de Judas, segundo a profecia contida num salmo de Davi. Depois de receberem a força do Espírito Santo com o dom de falar e de realizar milagres, começaram a dar testemunho da fé em Jesus Cristo na Judéia, onde fundaram Igrejas; partiram em seguida por todo o mundo, proclamando a mesma doutrina e a mesma fé entre os povos. Em cada cidade por onde passaram fundaram Igrejas, nas quais outras Igrejas que se fundaram e continuam a ser fundadas foram buscar mudas de fé e sementes de doutrina. Por esta razão, são também consideradas apostólicas, porque descendem das Igrejas dos apóstolos.
        Toda família deve ser necessariamente considerada segundo sua origem. Por isso, apesar de serem tão numerosas e tão importantes, estas Igrejas não formam senão uma só Igreja: a primeira, que foi fundada pelos apóstolos e que é origem de todas as outras. Assim, todas elas são primeiras e apostólicas, porque todas formam uma só. A comunhão na paz, a mesma linguagem da fraternidade e os laços de hospitalidade manifestam a sua unidade. Estes direitos só têm uma razão de ser: a unidade da mesma tradição sacramental.
        Se quisermos saber o conteúdo da pregação dos apóstolos, e, portanto, aquilo que Jesus Cristo lhes revelou, é preciso recorrer a estas mesmas Igrejas fundadas pelos próprios apóstolos e às quais pregaram quer de viva voz,quer por seus escritos.
        O Senhor realmente havia dito em certa ocasião: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora; e acrescentou: quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade (Jo 16,12-13). Com estas palavras revelou aos apóstolos que nada ficariam ignorando, porque prometeu-lhes o Espírito da Verdade que os levaria ao conhecimento da plena verdade. E, sem dúvida alguma, esta promessa foi cumprida, como provam os Atos dos Apóstolos ao narrarem a descida do Espírito Santo.

sábado, 2 de maio de 2015

Homilia do 5º Domingo da Páscoa


Permanecei em mim!

Pe. Luiz Carlos de Oliveira, C.Ss.R.

Permanecemos Nele

            Permanecer em Cristo é o normal da vida cristã. A união a Cristo pela fé é condição para viver o dom da salvação. Não se trata só de um estado espiritual que conquistamos, mas de um modo de vida. Fomos enxertados em Cristo (Rm 11,16-24). Jesus usa a imagem da videira. O tronco continua nos galhos e os faz vivos produzir frutos pela seiva que recebem. Na história do povo de Deus a videira tem um significado importante. Tem o sentido da paz, como lemos na narrativa do dilúvio quando Noé a planta e faz o vinho; É símbolo do povo que foi transplantado do Egito para a terra prometida (Sl 79,9ss); É o vinho que alegra o coração (Sl 103,15); É símbolo da espera messiânica - assentar-se sob a videira - (Miq 4,4); Lembra o banquete messiânico no qual serão servidos vinhos finos (Is 25,6); O vinho era usado nos sacrifícios dos templos (Nm 15,5); Essa riqueza de simbolismos nos leva a compreender como estamos unidos a Cristo. Se permanecermos Nele, podemos pedir o que quisermos e seremos atendidos porque estamos unidos à fonte de todos os bens. O fruto da videira, o vinho, era usado na ceia pascal que também Jesus celebrou. A imagem nos conduz ao vinho novo de Caná e ao vinho da Ceia que, unido ao sangue do coração perfurado de Cristo, nos une à Morte e Ressurreição do Senhor. É sinal do povo santo do Senhor. Os ramos estéreis são cortados para fortalecer os fecundos. Jesus produz os frutos no mundo através dos ramos da videira que produzem na força do tronco. A glória de Deus é que demos frutos. Os Atos dos Apóstolos narram os frutos que Paulo produziu depois de sua conversão. Por isso os apóstolos insistem em suas pregações que se convertam e arrependam-se dos pecados. Deste modo se unem a Cristo.

Amar com ações e verdade

            Permanecer em Cristo é guardar a fé e cumprir os mandamentos. O mandamento é o amor. Crer significa também amar uns aos outros. Não é um amor a poucos “irmãos”, mas a todos, como Deus ama, não fazendo distinção de pessoas (Mt 5,45). Guardar esse mandamento é permanecer unido a Cristo. Onde não existe o amor universal manifestado em palavras e gestos, não existe a fé em Jesus. É uma idolatria, isto é, uso de Deus em próprio proveito. Deus é para ser adorado e amado e não ser usado. Os ramos não são parasitas na árvore, mas parte dela, vivendo da mesma seiva. A seiva que nutre e produz fruto é o amor. “O mandamento de Deus é que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros”. A fé nos une a Deus e o amor realiza a obra da fé, pois a fé sem obras é morta (Tg 2,17). A videira produz frutos. A comunidade tem seus membros unidos uns aos outros pela vida comum a todos. O amor une os que crêem em Jesus.

Liberdade verdadeira

            As orações da celebração insistem na liberdade que essa união a Cristo nos confere: “Concedei aos que crêem no Cristo a liberdade verdadeira e a herança eterna” (Oração). É uma verdade a ser vivida: “Concedei que, conhecendo vossa verdade lhe sejamos fiéis” (Oferendas); Os sagrados mistérios celebrados nos passam à nova vida: “Fazei passar da antiga à nova vida, aqueles a quem concedestes a comunhão nos vossos mistérios” (Pós comunhão). Há uma real união entre Eucaristia e a vida cristã. A realidade espiritual se torna presente pela memória sacramental. Certa vez, celebrando para os pacientes dos hospitais psiquiátricos de Garça, ouvi uma senhora completar a oração dos fiéis com a frase: “A Eucaristia é minha ressurreição”. A videira produz frutos de Ressurreição.

Leituras: Atos 9,26-31; Salmo 21;1João 3,18-24; João 15,1-8.

Ficha nº 1438 – Homilia do 5º Domingo da Páscoa (03.05.15)
 
1.     Jesus usa a comparação da videira. Os ramos recebem a vida e produzem frutos. A videira é um símbolo forte Assim os que crêem em Cristo permanecem unidos a Ele e produzem frutos na prática do amor. Paulo depois que se uniu a Cristo produziu frutos.

2.    Permanecer em Cristo é guardar a fé e cumprir os mandamentos. Crer significa também amar. A fé nos une a Deus e o amor realiza a obra da fé. O amor une os que crêem em Jesus.

3.    As orações da celebração insistem na liberdade que essa união a Cristo nos confere. Há uma real união entre Eucaristia e vida cristã.

 Nem tudo que dá galho é ruim
           
            O Tempo Pascal é uma escola que nos ensina a viver a Ressurreição de Jesus. Lemos o ensinamento de Jesus sobre a árvore e os galhos. É preciso produzir fruto, senão a poda entra em ação e o galho vai para o fogo. Mesmo os galhos que produzem fruto recebem a poda de limpeza para produzir mais fruto.
            Jesus explica que Ele é tronco e nós os galhos. Sem estar ligado ao tronco não produzimos fruto. Quem está unido a Ele produz muito fruto. Fora dele secamos e vamos para o fogo. O que Deus quer é que produzamos muitos frutos.
            Permanecemos unidos se vivermos sua Palavra. Essa é a glória do Pai.
            Permanecemos unidos a Cristo pela fé. O amor é a seiva de Cristo que circula e nos dá a mesma vida de Cristo.
            Paulo produziu muitos frutos, mesmo depois de ter perseguido os cristãos, porque acolheu Jesus e sua Palavra. Por isso somos chamados a amar de coração. Não basta amar só de palavras. É preciso ser verdadeiro no amor.



quarta-feira, 29 de abril de 2015

Texto do Ofício das Leituras da Comemoração de Santa Catarina de Sena, Virgem e doutora da Igreja

Do Diálogo sobre a divina Providência, de Santa Catarina de Sena

Provei e vi

        Ó Divindade eterna, ó eterna Trindade, que pela união da natureza divina tanto fizeste valer o sangue de teu Filho unigênito! Tu, Trindade eterna, és como um mar profundo, onde quanto mais procuro mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de te procurar. Tu sacias a alma, mas de um modo insaciável; porque, saciando-se no teu abismo, a alma permanece sempre sedenta e faminta de ti, ó Trindade eterna, cobiçando e desejando ver-te à luz de tua luz.
        Provei e vi em tua luz com a luz da inteligência, o teu insondável abismo, ó Trindade eterna, e a beleza de tua criatura. Por isso, vendo-me em ti, vi que sou imagem tua por aquela inteligência que me é dada como participação do teu poder, ó Pai eterno, e também da tua sabedoria, que é apropriada ao teu Filho unigênito. E o Espírito Santo, que procede de ti e de teu Filho, deu-me a vontade que me torna capaz de amar-te.
        Pois tu, ó Trindade eterna, és criador e eu criatura; e conheci – porque me fizeste compreender quando de novo me criaste no sangue de teu Filho – conheci que estás enamorado pela beleza de tua criatura.
        Ó abismo, ó Trindade eterna, ó Divindade, ó mar profundo! Que mais poderias dar-me do que a ti mesmo? Tu és um fogo que arde sempre e não se consome. Tu és que consomes por teu calor todo o amor profundo da alma. Tu és de novo o fogo que faz desaparecer toda frieza e iluminas as mentes com tua luz. Com esta luz me fizeste conhecer a verdade.
        Espelhando-me nesta luz, conheço-te como Sumo Bem, o Bem que está acima de todo bem, o Bem feliz, o Bem incompreensível, o Bem inestimável, a Beleza que ultrapassa toda beleza, a Sabedoria superior a toda sabedoria. Porque tu és a própria Sabedoria, tu,o pão dos anjos, que no fogo da caridade te deste aos homens.
        Tu és a veste que cobre minha nudez; alimentas nossa fome com a tua doçura, porque és doce sem amargura alguma. Ó Trindade eterna!

sábado, 25 de abril de 2015

Texto do Ofício das Leituras da Festa de São Marcos, Evangelista

Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo

A pregação da verdade

        A Igreja, espalhada pelo mundo inteiro até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e de seus discípulos a fé em um só Deus, Pai todo-poderoso, que criou o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe (cf. At 4,24); em um só Jesus Cristo Filho de Deus, que se fez homem para nossa salvação; e no Espírito Santo, que, pela boca dos profetas, anunciou antecipadamente os desígnios de Deus: a vinda de Jesus Cristo, nosso amado Senhor, o seu nascimento de uma Virgem, a sua paixão e ressurreição de entre os mortos, a ascensão corporal aos céus, a sua futura vinda do céu na glória do Pai. Então ele virá para recapitular o universo inteiro (cf. Ef 1,10) e ressuscitar todos os homens, a fim de que, segundo a vontade do Pai invisível, diante de Cristo Jesus nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua o proclame (cf. Fl 2,10-11), e ele julgue todos os homens com justiça.
        A Igreja recebeu, como dissemos, e guarda com todo cuidado esta pregação e esta fé; apesar de espalhada pelo mundo inteiro, guarda-a como se morasse em uma só casa. Acredita nela como quem possui uma só alma e um só coração; e a proclama, ensina e transmite, como se tivesse uma só boca. Porque, embora através do mundo haja línguas muito diferentes, a força da Tradição é uma só e a mesma para todos.
        As Igrejas fundadas na Germânia, as que se encontram na Ibéria e nas terras celtas, as do Oriente, do Egito e Líbia, ou as do centro do mundo, não creem nem ensinam de modo diferente. Assim como o sol, criatura de Deus, é um só e o mesmo para todo o universo, igualmente a pregação da verdade brilha em toda parte e ilumina todos os homens que querem chegar ao conhecimento da verdade.
        E dos que presidem às Igrejas, nem mesmo o mais eloquente, dirá coisas diferentes das que afirmamos, pois ninguém está acima do divino Mestre; nem o orador menos hábil enfraquecerá a Tradição. Sendo uma só e mesma a fé, nem aquele que muito diz sobre ela a aumenta, nem aquele que diz menos a diminui.

sábado, 11 de abril de 2015

Texto do Ofício das Leituras da comemoração de Santo Estanislau, Bispo e Mártir

Das Cartas de São Cipriano, bispo e mártir

Combatendo o bom combate 

        Enquanto combatemos o bom combate da fé, Deus, seus anjos e o próprio Cristo nos contemplam. Que glória imensa e que felicidade lutarmos na presença de Deus e sermos coroados por Cristo Juiz! 
        Armemo-nos, queridos irmãos, de coragem e fortaleza, e preparemo-nos para a luta com pureza de espírito, fé inquebrantável e generosa confiança. Avance o exército de Deus para a batalha que nos foi proposta. O santo Apóstolo ensina como nos devemos armar e preparar: Cingi os vossos rins com a verdade, revesti-vos com a couraça da justiça e calçai os vossos pés com a prontidão em anunciar o evangelho da paz. Tomai o escudo da fé, o qual vos permitirá apagar todas as flechas ardentes do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e o gládio do espírito, isto é, a Palavra de Deus (Ef 6,14-17). 
        Tomemos estas armas, protejamo-nos com estas defesas espirituais e celestes, para podermos resistir e vencer os assaltos do demônio no dia do combate. 
        Revistamo-nos com a couraça da justiça. Com ela nosso peito estará protegido e seguro contra as flechas do inimigo. Estejam nossos pés calçados e guarnecidos com a doutrina evangélica. Assim, quando pisarmos e esmagarmos a serpente, não seremos mordidos nem vencidos.  
        Seguremos com firmeza o escudo da fé, para que nele seja destruído tudo quanto o inimigo lançar contra esta proteção. 
        Tomemos também o capacete espiritual para proteger nossa cabeça; com ele, os ouvidos não escutarão os anúncios da maldade, os olhos não verão as imagens detestáveis, a fronte conservará incólume o sinal de Deus e a boca proclamará vitoriosamente a Cristo, seu Senhor. 
        Armemos finalmente nossa mão direita com a espada espiritual para rejeitar com determinação os sacrifícios infames; e, lembrando-nos da eucaristia, recebamos o corpo do Senhor e vivamos em união com ele, esperando receber mais tarde, das mãos do mesmo Senhor, o prêmio das coroas celestes. 
        Que estas realidades, queridos irmãos, fiquem bem gravadas em vossos corações. Se o dia da perseguição nos encontrar nestes pensamentos e meditações,o soldado de Cristo, instruído por suas ordens e preceitos, não temerá o combate, mas estará pronto para a coroa.