Da vida de santa Francisca Romana,
escrita por Maria Magdalena Anguillaria, superiora das oblatas de Tor de
Specchi
A paciência de santa Francisca
Deus pôs à prova a paciência de Francisca não apenas
nos bens exteriores de sua fortuna, mas quis experimentá-la em seu próprio
corpo, por meio de frequentes e graves doenças, com que foi atingida, como já
se disse e se dirá em seguida. Mesmo assim, nunca se notou nela o menor gesto
de impaciência ou qualquer atitude de desagrado pelo tratamento que, às vezes
com certa falta de habilidade, lhe tinha sido ministrado.
Francisca mostrou sua coragem na morte prematura dos
filhos, que amava com grande ternura. Aceitava a vontade divina com ânimo
sempre tranquilo, dando graças por tudo o que lhe acontecia. Com igual
constância, suportou os caluniadores e as más línguas que criticavam seu modo
de vida. Jamais demonstrou a menor aversão por estas pessoas que pensavam e
falavam mal dela e do que lhe dizia respeito. Mas, pagando o mal com o bem,
costumava rezar continuamente a Deus por elas.
Contudo, Deus não a escolheu para ser
santa somente para si, mas para fazer reverter em proveito espiritual e
corporal do próximo os dons que recebera da graça divina. Por isso, era dotada
de grande amabilidade a ponto de que todo aquele que tivesse ocasião de tratar
com ela, imediatamente se sentia cativado por sua bondade e estima, e se
tornava dócil à sua vontade. Havia em suas palavras tanta eficácia de força
divina, que com breves palavras levantava o ânimo dos aflitos e angustiados,
sossegava os inquietos, acalamava os encolerizados, reconciliava os inimigos,
extinguia ódios inveterados e rancores, e muitas vezes impediu a vingança
premeditada.
Por isso, de toda parte recorriam a
Francisca como a uma proteção segura, e ninguém saía de perto dela sem ser
consolado; no entanto, com toda franqueza, repreendia também os pecados e
censurava sem temor tudo o que era ofensivo e desagradável a Deus.
Grassavam em Roma várias epidemias,
mortais e contagiosas. Desprezando o perigo de contágio, a santa não hesitava
também nessas ocasiões em mostrar o seu coação cheio de misericórdia para com
os infelizes e necessitados de auxílio alheio. Depois de encontrar os doentes,
primeiro persuadia-os a unirem suas dores à paixão de Cristo; depois,
socorria-os com uma assistência assídua, exortando-os a aceitarem de bom grado
aquele sofrimento da mão de Deus e a suportá-lo por amor daquele em primeiro
lugar tanto sofrera por eles.
Francisca não se limitava a tratar os
doentes que podia agasalhar em sua casa, mas ia à sua procura em casebres e
hospitais públicos onde se abrigavam. Quando os encontrava, saciava-lhes a
sede, arrumava os leitos e tratava de suas feridas; e por pior que fosse o mau
cheiro e maior a repugnância que lhe inspiravam, imensa era a dedicação e a
caridade com que deles cuidava. Costumava também ir ao Campo Santo, levando
alimentos e finas iguarias, para distribuir entre os mais necessitados; de
volta para casa, recolhia a trazia roupas usadas e pobres trapos cheios de
sujeira; lavava-os cuidadosamente e consertava-os; depois, como se fossem
servir ao seu Senhor, dobrava-os com cuidado e guardava no meio de perfumes.
Durante trinta anos, Francisca prestou
este serviço aos enfermos e nos hospitais; quando ainda morava em casa de seu
marido, visitava com frequência os hospitais de Santa Maria e de Santa Cecília,
no Transtévere, o do Espírito Santo, em Sássia, e ainda outro no Campo Santo.
Durante o período de contágio não era apenas difícil encontrar médicos que
curassem os corpos, mas também sacerdotes para administrar os remédios
necessário às almas. Ela mesma ia procura-los e leva-los àqueles que já estavam
preparados para receber os sacramentos da penitência e da eucaristia. Para
conseguir isto mais facilmente, sustentava à própria custa um sacerdote, que ia
aos referidos hospitais visitar os doentes que ela lhe indicava.

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